"cola lá, leva umas ferramentas
que eu chamo um multirão
pra reformar nossa relação"
glauco martins
terça-feira, 28 de abril de 2009
Eu não quero ser um estereótipo!
Eu não quero ser um estereótipo! Um tipo estéril. Que não gera nada além do que a fôrma o limitou. Embalagem e conteúdo que se confundem. Eu quero ser um imprevisto improvável.
Eu não quero ser anarquista! Eu quero ser anarquista!
Se ser anarquista é fazer meu desejo passar por cima dos outros, sem o mínimo de consideração,
Não, eu não quero ser anarquista
Se ser anarquista é mentir pra tirar proveito de alguma situação,
Não, eu não quero ser anarquista
Se ser anarquista é não ter lei nenhuma, a ponto de desrespeitar aquilo que eu mesma me proponho,
Não, eu não quero ser anarquista
Se ser anarquista significa que isso vale só pra mim, e o resto do mundo tem que se submeter a minha desordem,
Não, eu não quero ser anarquista
Se ser anarquista significa individualismo egoísta,
Não, eu não quero ser anarquista
Mas eu quero cultivar o anarquismo, por acreditar que ele não é nada disso que um bando de burgueses enrustidos quer fazer crer. É muito fácil encobrir seus podres sob a máscara de amoralidade consciente e orgulhosa de si mesmo. Eu só quero saber o que diferencia a hipocrisia do auto-denominado anarquista da hipocrisia corrente e, por que não?, aceita na sociedade. A diferença é seu discurso? Ou seu cabelo e modo de vestir rebeldes?
Não, eu não quero ser anarquista
Se ser anarquista é mentir pra tirar proveito de alguma situação,
Não, eu não quero ser anarquista
Se ser anarquista é não ter lei nenhuma, a ponto de desrespeitar aquilo que eu mesma me proponho,
Não, eu não quero ser anarquista
Se ser anarquista significa que isso vale só pra mim, e o resto do mundo tem que se submeter a minha desordem,
Não, eu não quero ser anarquista
Se ser anarquista significa individualismo egoísta,
Não, eu não quero ser anarquista
Mas eu quero cultivar o anarquismo, por acreditar que ele não é nada disso que um bando de burgueses enrustidos quer fazer crer. É muito fácil encobrir seus podres sob a máscara de amoralidade consciente e orgulhosa de si mesmo. Eu só quero saber o que diferencia a hipocrisia do auto-denominado anarquista da hipocrisia corrente e, por que não?, aceita na sociedade. A diferença é seu discurso? Ou seu cabelo e modo de vestir rebeldes?
Amar ou não amar...
"O mundo não é eterno e tudo tem um prazo
Nossas vontades mudam nas viradas do acaso;
Pois esta é uma questão ainda não resolvida:
A vida faz o amor, ou este faz a vida?"
Hamlet
Nossas vontades mudam nas viradas do acaso;
Pois esta é uma questão ainda não resolvida:
A vida faz o amor, ou este faz a vida?"
Hamlet
sábado, 25 de abril de 2009
Ela. Eu.
“Porque eu me imaginava mais forte. Porque eu fazia do amor um cálculo matemático errado: pensava que, somando as compreensões, eu amava. Não sabia que, somando as incompreensões, é que se ama verdadeiramente. Porque eu, só por ter tido carinho, pensei que amar é fácil. E é também porque sempre fui de brigar muito, meu modo é brigando. É porque sempre tento chegar pelo meu modo. É porque ainda não sei ceder. É porque no fundo eu quero amar o que eu amaria – e não o que é. É porque ainda não sou eu mesma, e então o castigo é amar um mundo que não é ele. É também porque eu me ofendo à toa. É porque talvez eu precise que me digam com brutalidade, pois sou muito teimosa. É porque sou muito possessiva e então me foi perguntado com alguma ironia se eu também queria o rato pra mim. (...) Talvez eu me ache delicada demais apenas porque não cometi os meus crimes. Só porque contive os meus crimes, eu me acho de amor inocente. Como posso amar a grandeza do mundo se não posso amar o tamanho de minha natureza?
Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu.
(Lispector)
Eu, que jamais me habituarei a mim, estava querendo que o mundo não me escandalizasse. Porque eu, eu estava querendo me compensar de mim mesma com uma terra menos violenta que eu.
(Lispector)
quinta-feira, 23 de abril de 2009
Ana
Não me reconheço nesse nome
Não me reconheço no espelho
Sensação de estranheza ao ouvir, ver
Perdida no caminho entre querer, poder, que no fundo não passa de limitação do ser. Caminhei, caminhei e agora não tenho conseguido voltar ao ser.
O oco do peito sangra a seco e silêncio. O que ali ocupava estilhacei e perdi.
"Afinal de contas dei meu coração e você pôs na estante"
Estamos, pois, mais próximos - endurecidos.
Não me reconheço no espelho
Sensação de estranheza ao ouvir, ver
Perdida no caminho entre querer, poder, que no fundo não passa de limitação do ser. Caminhei, caminhei e agora não tenho conseguido voltar ao ser.
O oco do peito sangra a seco e silêncio. O que ali ocupava estilhacei e perdi.
"Afinal de contas dei meu coração e você pôs na estante"
Estamos, pois, mais próximos - endurecidos.
quarta-feira, 22 de abril de 2009
What have we found?
Trauma. Déjà vu. O eterno retorno.
Mari Maru
Argentina Mexicana
Argentina Alemanha
"How I wish, how I wish you were here
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here" (Wish you were here - Pink Floyd)
Mari Maru
Argentina Mexicana
Argentina Alemanha
"How I wish, how I wish you were here
We're just two lost souls
Swimming in a fish bowl,
Year after year,
Running over the same old ground.
What have we found?
The same old fears
Wish you were here" (Wish you were here - Pink Floyd)
Comentário previamente censurado do Iago
Acho significante que no primeiro exemplo o corpo é de um homem e no segundo, de uma mulher, acho que são regimes de corporalidade diferentes, o corpo da mulher é muito mais imediatamente sexualizado e daí recebe uma carga valorativa particular
1-ver uma mulher nua é algo positivo do ponto de vista dos homens
2-a mulher "perde" alguma coisa simbólica ao ser vista nua, perde seu valor de virgindade, portanto, ao ver geral, sua dignidade
3-ela pode manipular isso a bel prazer, por mais que na minha opinião ela perca mais que ganhe nesse sistema (exemplo dela furando fila)
4-ver um homem nu não é contemplar um corpo sexualizado a priori; do ponto de vista geral, é uma vista desagradável
5-se uma mulher tira a roupa os caras acham que ela quer dar pra todos eles
6-se um homem tira a roupa as mulheres sabem que ele quer comer todas elas, mas elas ja sabiam antes, todos sabem
7-não necessariamente ele tá tirando a roupa PRA comê-las. o corpo dele pode "passar" como 'só' um corpo muito mais do que o corpo da mulher, que é uma oferta sexual involuntária (mesmo quando de roupa)
1-ver uma mulher nua é algo positivo do ponto de vista dos homens
2-a mulher "perde" alguma coisa simbólica ao ser vista nua, perde seu valor de virgindade, portanto, ao ver geral, sua dignidade
3-ela pode manipular isso a bel prazer, por mais que na minha opinião ela perca mais que ganhe nesse sistema (exemplo dela furando fila)
4-ver um homem nu não é contemplar um corpo sexualizado a priori; do ponto de vista geral, é uma vista desagradável
5-se uma mulher tira a roupa os caras acham que ela quer dar pra todos eles
6-se um homem tira a roupa as mulheres sabem que ele quer comer todas elas, mas elas ja sabiam antes, todos sabem
7-não necessariamente ele tá tirando a roupa PRA comê-las. o corpo dele pode "passar" como 'só' um corpo muito mais do que o corpo da mulher, que é uma oferta sexual involuntária (mesmo quando de roupa)
terça-feira, 14 de abril de 2009
Corpos
- Cena 1. Chegando em frente à cachoeira, o moço animado com a beleza do lugar tira as roupas sem cerimônias e pula na água. Continua nu durante todo o passeio, sem se preocupar com as outras pessoas ao redor.
- Cena 2. Em cima da mesa o casal faz um strip na frente de toda a festa, se esfregam, rebolam e terminam só com a roupa de baixo. A moça na fila do banheiro, oferece os seios para entrar primeiro, antes das 7 pessoas que esperam a mais de 20 minutos. Mais tarde, com os pedidos para tirar novamente a roupa, ela o faz com sensualidade, aguardando com falsa modéstia e despretensão os elogios ao belo corpo.
Olhando rápido as duas situações parecem dizer de um mesmo movimento, de uma mesma atitude com relação ao corpo. Nos dois casos as pessoas dão a entender que se relacionam bem com o corpo, sem pudores. Mas eu tendo a achar que não é a mesma coisa. Na cena 1 o movimento é de dentro pra fora: a aceitação do corpo em primeiro lugar, sendo extravasada na sua nudez descompromissada, natural, não hipócrita, dessexualizada. O corpo é belo em si e não há mal nenhum que apareça descoberto.
Na cena 2 é o contrário: a incerteza quanto ao corpo (ou a necessidade egóica de sua constante afirmação) aparece na nudez como busca de aprovação. O corpo é belo se nu e não é uma nudez descompromissada: ele está nu para os outros primeiro, para que estes outros afirmem o corpo, a beleza do corpo. É um corpo sexual e um sexual a meu ver não saudável. A relação que faço é de carência-afirmação-corpo-sexual, por isso não saudável. Ah, tá difícil explicar. É um sexual que não visa ao sexual e sim a uma carência afetiva: olha, como a única forma de você me ver é com um apelo sexual, eu te dou um pouco disso, nem que seja no nível do olhar e você aplaca a minha necessidade de me sentir bem. Cada um ganha um pouco nessa barganha, se satisfazendo pelos meios 'errados' e de forma incompleta.
Eu não vejo problemas em corpos nus, em corpos sexuais ou em carências em busca de satisfação. Só que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
É que eu odeio pseudo-libertário.
- Cena 2. Em cima da mesa o casal faz um strip na frente de toda a festa, se esfregam, rebolam e terminam só com a roupa de baixo. A moça na fila do banheiro, oferece os seios para entrar primeiro, antes das 7 pessoas que esperam a mais de 20 minutos. Mais tarde, com os pedidos para tirar novamente a roupa, ela o faz com sensualidade, aguardando com falsa modéstia e despretensão os elogios ao belo corpo.
Olhando rápido as duas situações parecem dizer de um mesmo movimento, de uma mesma atitude com relação ao corpo. Nos dois casos as pessoas dão a entender que se relacionam bem com o corpo, sem pudores. Mas eu tendo a achar que não é a mesma coisa. Na cena 1 o movimento é de dentro pra fora: a aceitação do corpo em primeiro lugar, sendo extravasada na sua nudez descompromissada, natural, não hipócrita, dessexualizada. O corpo é belo em si e não há mal nenhum que apareça descoberto.
Na cena 2 é o contrário: a incerteza quanto ao corpo (ou a necessidade egóica de sua constante afirmação) aparece na nudez como busca de aprovação. O corpo é belo se nu e não é uma nudez descompromissada: ele está nu para os outros primeiro, para que estes outros afirmem o corpo, a beleza do corpo. É um corpo sexual e um sexual a meu ver não saudável. A relação que faço é de carência-afirmação-corpo-sexual, por isso não saudável. Ah, tá difícil explicar. É um sexual que não visa ao sexual e sim a uma carência afetiva: olha, como a única forma de você me ver é com um apelo sexual, eu te dou um pouco disso, nem que seja no nível do olhar e você aplaca a minha necessidade de me sentir bem. Cada um ganha um pouco nessa barganha, se satisfazendo pelos meios 'errados' e de forma incompleta.
Eu não vejo problemas em corpos nus, em corpos sexuais ou em carências em busca de satisfação. Só que uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa.
É que eu odeio pseudo-libertário.
Eu não acredito em seres humanos, pero que los hay, los hay...
Caso o Zé Ninguém não tenha ouvido direito
PEREIRA, Iago in "Dreaming's Mystery Lane"
www.mysterylane.blogger.com.br
"(...) Vou descrever aqui o comportamento sexual praticado por grupos de Homo Sapiens que sofrem de uma gravíssima doença emocional - a normopatia. Entre estes grupos, os machos são detentores de um status incontesto - sujeito neutro de enunciação, tomador de decisões e provedor financeiro. As fêmeas costumam desfrutar de um período relativamente liberal entre o fim de suas adolescências e o começo de suas vidas adultas. Neste período, os machos buscam o intercurso com o maior número de fêmeas possível - o que, feito com sucesso, lhes rende status tanto entre machos quanto entre fêmeas. Para os machos, é importante que este intercurso não seja seguido de uma relação posterior - o que é visto como perda da liberdade, enredamento. As fêmeas perdem status às vistas do grupo quando praticam intercurso com os machos; portanto, só se dedicam a esta atividade quando se asseguram de que ele está suficientemente envolvido no ritual do flerte a ponto de poder encaminhá-lo para um casamento. Uma vez casados, o macho costuma manter uma atividade sexual com outras fêmeas - porém o faz escondendo tal fato das fêmeas do grupo, e portanto, só acumulando prestígio com os outros machos. Uma vez tendo enredado o macho no casamento, a fêmea se dedica a sua atividade usual - a preparação de alimentos e a organização ritual do espaço doméstico - e a atividade sexual se mantém graças à insistência do macho, na busca de sua satisfação. Eventualmente a prática sexual leva à produção de crias, cuja responsabilidade de criação recai sobre a fêmea."
Fragmento do jornal de campo de Paqui Adunur, positivantropólogo do sec. XXIII da Terra Alternativa 12 em visita à Belo Horizonte/Brasil em 2009.
Meio que todo mundo sabe que as coisas funcionam nessa matriz, às vezes explicitamente, às vezes tacitamente. Variantes acontecem e detalhes mudam (muitas das mulheres normopatas daqui parecem curtir um sexozinho dentro dos namoros/casamentos) mas o modelo instituído é esse aí. Ele é expropriador pras mulheres porque elas perdem (a/com a) sua autonomia sexual (o direito de desejar), e perdem sua subjetividade quando convertidas em mero objeto-corpo de satisfação dos desejos masculinos. Alguns homens, incapazes de conquistar o máximo de mulheres ou não-desejosos de tal (românticos, homosexuais, assexuados) são colocados nas posições mais baixas da hierarquia pelos membros dos grupos normopatas (por ambos homens e mulheres). Algumas mulheres, que clamam para si autonomia sexual e rejeitam a ideologia do sexo-enquanto-perda-de-algo, são vistas como não só um objeto-corpo - mas um barato, vagabundo, comum e portanto desinteressante.
Eu rejeitei esse modelo tão logo ele se configurou pra mim. Rejeitei me tornando um romântico; era uma saída segura tanto pela minha dificuldade de cortejar as mulheres quanto pelo meu asco com os grupos normopatas. Decidi encarar as mulheres enquanto sujeitos; declarando não me importar com o sexo, em perfeita contraposição ao normal, eu queria a RELAÇÃO. Apenas para me aproximar delas e ver que elas, por alguma razão que me era obscura na época, não o desejavam; isso não as excitava. Talvez, hoje penso, porque eu havia renegado a corporalidade - a minha e a delas. Ao declarar as mulheres sujeito eu proibí meu corpo de desejá-las, ou ao menos - o que era possível! - de manifestar este desejo. Eu dessexualizei minhas relações ao máximo, só para sofrer com as tensões de meu corpo e pela ausência destas tensões despertadas nelas por mim.
Uma hora, claro, a garrafa estourou. E neste momento eu descobri que tinha um corpo, e que eu precisava vivê-lo se eu quisesse alguma alegria nessa vida. Decidi aprender com os melhores jogadores, os mais pegadores, o COMO FAS de catar mulher. Eu entrei no jogo o tanto que consegui. Eu aprendi a fazer as piadas (que faziam das mulheres corpo-objeto apenas), eu tentei aprender a fugir das relações, eu ironizei (sem muita fé) as mulheres que tinham autonomia sexual. Por trás de todas as piadas eu enxergava uma crítica ao comportamento das mulheres normopatas; eu sabia que meus companheiros homens não pensavam assim, mas saber que eu estava, no final, ironizando o próprio jogo sexual normopata era tranquilizante.
Em um certo momento eu me deparei com os limites de fazer esse jogo duplo. Eu tive de encarar que ou eu partia de fato pra prática e as tratava como objetos-corpo (o que elas estavam acostumadas e o que elas esperavam de um Homem com H) ou dava outro rumo pra coisa. Daí eu larguei o jogo. Daí eu decidi que o único jeito de mudar essa porra toda é que elas e os não-normopatas fizessem uma greve geral, desmontássemos o placar de pontos (o de dentro e o de fora) e começassemos a nos tratar como, afinal, seres humanos. Portadores de corpos e subjetividades nos quais é uma delícia se atirar, dos quais é extático se embebedar, e cujos enredamentos compoem, afinal, quem nós mesmos somos.
O pegador vive a doença. A virgenzinha vive a doença. A vagabunda assumida vive a doença. Qualquer um que se lembre que se tratam de seres humanos, corporal e psiquicamente, atingiu um vislumbre da sanidade. Mas nesse mundo estranho as coisas aparecem ao contrário, e o "louco", o "doidão", o "visionário", o "radical", é aquele que olhou pras coisas e simplesmente constatou o óbvio - enquanto os normais, ou melhor, normopatas, vivem a fantasia de um jogo onde um só ganha quando o outro perde. O amor é o que acontece quando você se afunda em seres humanos de verdade (um ou muitos, à seu gosto); o resto é só fantasma.
PEREIRA, Iago in "Dreaming's Mystery Lane"
www.mysterylane.blogger.com.br
"(...) Vou descrever aqui o comportamento sexual praticado por grupos de Homo Sapiens que sofrem de uma gravíssima doença emocional - a normopatia. Entre estes grupos, os machos são detentores de um status incontesto - sujeito neutro de enunciação, tomador de decisões e provedor financeiro. As fêmeas costumam desfrutar de um período relativamente liberal entre o fim de suas adolescências e o começo de suas vidas adultas. Neste período, os machos buscam o intercurso com o maior número de fêmeas possível - o que, feito com sucesso, lhes rende status tanto entre machos quanto entre fêmeas. Para os machos, é importante que este intercurso não seja seguido de uma relação posterior - o que é visto como perda da liberdade, enredamento. As fêmeas perdem status às vistas do grupo quando praticam intercurso com os machos; portanto, só se dedicam a esta atividade quando se asseguram de que ele está suficientemente envolvido no ritual do flerte a ponto de poder encaminhá-lo para um casamento. Uma vez casados, o macho costuma manter uma atividade sexual com outras fêmeas - porém o faz escondendo tal fato das fêmeas do grupo, e portanto, só acumulando prestígio com os outros machos. Uma vez tendo enredado o macho no casamento, a fêmea se dedica a sua atividade usual - a preparação de alimentos e a organização ritual do espaço doméstico - e a atividade sexual se mantém graças à insistência do macho, na busca de sua satisfação. Eventualmente a prática sexual leva à produção de crias, cuja responsabilidade de criação recai sobre a fêmea."
Fragmento do jornal de campo de Paqui Adunur, positivantropólogo do sec. XXIII da Terra Alternativa 12 em visita à Belo Horizonte/Brasil em 2009.
Meio que todo mundo sabe que as coisas funcionam nessa matriz, às vezes explicitamente, às vezes tacitamente. Variantes acontecem e detalhes mudam (muitas das mulheres normopatas daqui parecem curtir um sexozinho dentro dos namoros/casamentos) mas o modelo instituído é esse aí. Ele é expropriador pras mulheres porque elas perdem (a/com a) sua autonomia sexual (o direito de desejar), e perdem sua subjetividade quando convertidas em mero objeto-corpo de satisfação dos desejos masculinos. Alguns homens, incapazes de conquistar o máximo de mulheres ou não-desejosos de tal (românticos, homosexuais, assexuados) são colocados nas posições mais baixas da hierarquia pelos membros dos grupos normopatas (por ambos homens e mulheres). Algumas mulheres, que clamam para si autonomia sexual e rejeitam a ideologia do sexo-enquanto-perda-de-algo, são vistas como não só um objeto-corpo - mas um barato, vagabundo, comum e portanto desinteressante.
Eu rejeitei esse modelo tão logo ele se configurou pra mim. Rejeitei me tornando um romântico; era uma saída segura tanto pela minha dificuldade de cortejar as mulheres quanto pelo meu asco com os grupos normopatas. Decidi encarar as mulheres enquanto sujeitos; declarando não me importar com o sexo, em perfeita contraposição ao normal, eu queria a RELAÇÃO. Apenas para me aproximar delas e ver que elas, por alguma razão que me era obscura na época, não o desejavam; isso não as excitava. Talvez, hoje penso, porque eu havia renegado a corporalidade - a minha e a delas. Ao declarar as mulheres sujeito eu proibí meu corpo de desejá-las, ou ao menos - o que era possível! - de manifestar este desejo. Eu dessexualizei minhas relações ao máximo, só para sofrer com as tensões de meu corpo e pela ausência destas tensões despertadas nelas por mim.
Uma hora, claro, a garrafa estourou. E neste momento eu descobri que tinha um corpo, e que eu precisava vivê-lo se eu quisesse alguma alegria nessa vida. Decidi aprender com os melhores jogadores, os mais pegadores, o COMO FAS de catar mulher. Eu entrei no jogo o tanto que consegui. Eu aprendi a fazer as piadas (que faziam das mulheres corpo-objeto apenas), eu tentei aprender a fugir das relações, eu ironizei (sem muita fé) as mulheres que tinham autonomia sexual. Por trás de todas as piadas eu enxergava uma crítica ao comportamento das mulheres normopatas; eu sabia que meus companheiros homens não pensavam assim, mas saber que eu estava, no final, ironizando o próprio jogo sexual normopata era tranquilizante.
Em um certo momento eu me deparei com os limites de fazer esse jogo duplo. Eu tive de encarar que ou eu partia de fato pra prática e as tratava como objetos-corpo (o que elas estavam acostumadas e o que elas esperavam de um Homem com H) ou dava outro rumo pra coisa. Daí eu larguei o jogo. Daí eu decidi que o único jeito de mudar essa porra toda é que elas e os não-normopatas fizessem uma greve geral, desmontássemos o placar de pontos (o de dentro e o de fora) e começassemos a nos tratar como, afinal, seres humanos. Portadores de corpos e subjetividades nos quais é uma delícia se atirar, dos quais é extático se embebedar, e cujos enredamentos compoem, afinal, quem nós mesmos somos.
O pegador vive a doença. A virgenzinha vive a doença. A vagabunda assumida vive a doença. Qualquer um que se lembre que se tratam de seres humanos, corporal e psiquicamente, atingiu um vislumbre da sanidade. Mas nesse mundo estranho as coisas aparecem ao contrário, e o "louco", o "doidão", o "visionário", o "radical", é aquele que olhou pras coisas e simplesmente constatou o óbvio - enquanto os normais, ou melhor, normopatas, vivem a fantasia de um jogo onde um só ganha quando o outro perde. O amor é o que acontece quando você se afunda em seres humanos de verdade (um ou muitos, à seu gosto); o resto é só fantasma.
sábado, 11 de abril de 2009
Simplesmente
Meu Quinto Elemento
(Mundo Livre S/A)
Vou fazer picadinho de você se deixar de ser
Caprichosa, dengosa, manhosa, teimosa,
Charmosa, cheirosa
Abre-te sésamo, ou um lobo vai torar
Vou mandar se fuder simplesmente se parar de ser
Exigente, carente, ardente
Fecha-te sésamo
(Mundo Livre S/A)
Vou fazer picadinho de você se deixar de ser
Caprichosa, dengosa, manhosa, teimosa,
Charmosa, cheirosa
Abre-te sésamo, ou um lobo vai torar
Vou mandar se fuder simplesmente se parar de ser
Exigente, carente, ardente
Fecha-te sésamo
sexta-feira, 10 de abril de 2009
De cada amor tu herdarás só o cinismo
O seu amor, ame-o e deixe-o. Deixar livre a pessoa amada. Deixar fluir livre o seu sentimento amor. Significa apenas deixar o amor extravasar para além de um relacionamento a dois? Penso que seja muito mais que isso. Se o amor não consegue correr nem entre dois como abrir outros canais com outros mares? O máximo que vai acontecer será a formação de umas poucas poças d'água que logo menos vão secar.
Já faz tempo que eu sei que a minha resposta à questão de amar livremente não tem a ver, necessariamente, com a manutenção de diversos parceiros (na verdade era mais uma maneira de tentar me provar que eu era capaz e provar aos outros). Ok, o ponto é outro. Atende pelo nome de sinceridade. E aí, o que é ser sincero? E pra quem ser sincero? Começa pelo clichê de não mentir pra si mesmo e se estende ao parceiro. E acaba aí? Também acho que não. O oceano que envolve a ilha dos dois não pode saber de nada? Eles não podem se horrorizar? Talvez uma estratégia de início de partida para não afastá-los logo de cara, então não comento por enquanto que tenho namorada... É isso aí, começa-se alicerçando tudo em fortes bases de confiança. E no mais, tudo se explica e se entende no final, tudo por uma boa causa. E sem maldade. Dizem que existe um lugar que está cheio de boas intenções...
Ah, então sinceridade se resume a isso? Amor, eu fiquei com tal e tal pessoa e amo não sei quantas, também tem aquela super gatinha e etc e tal. Passamos o tempo dos nossos encontros falando de outros encontros. Com qualquer outra a namorada não é mencionada e falando-se em qualidade do tempo dispensado a cada uma, quem se dá melhor?
Fala-se disso, traz-se outros relacionamentos pra dentro do relacionamento e o que é vital pro relacionamento em questão sequer é comentado. Ah, o que são alguns meses, sei lá quantos, a uma distância de 2180 km? Isso não afeta em nada o relacionamento de um casal, ne? Melhor nem comentar, quando não se puder mais esconder a excitação com a partida ou a menção ao assunto numa roda de amigos a gente fala sobre, melhor seria deixar pra avisar no dia da despedida: Tô indo, tchau.
Já faz tempo que eu sei que a minha resposta à questão de amar livremente não tem a ver, necessariamente, com a manutenção de diversos parceiros (na verdade era mais uma maneira de tentar me provar que eu era capaz e provar aos outros). Ok, o ponto é outro. Atende pelo nome de sinceridade. E aí, o que é ser sincero? E pra quem ser sincero? Começa pelo clichê de não mentir pra si mesmo e se estende ao parceiro. E acaba aí? Também acho que não. O oceano que envolve a ilha dos dois não pode saber de nada? Eles não podem se horrorizar? Talvez uma estratégia de início de partida para não afastá-los logo de cara, então não comento por enquanto que tenho namorada... É isso aí, começa-se alicerçando tudo em fortes bases de confiança. E no mais, tudo se explica e se entende no final, tudo por uma boa causa. E sem maldade. Dizem que existe um lugar que está cheio de boas intenções...
Ah, então sinceridade se resume a isso? Amor, eu fiquei com tal e tal pessoa e amo não sei quantas, também tem aquela super gatinha e etc e tal. Passamos o tempo dos nossos encontros falando de outros encontros. Com qualquer outra a namorada não é mencionada e falando-se em qualidade do tempo dispensado a cada uma, quem se dá melhor?
Fala-se disso, traz-se outros relacionamentos pra dentro do relacionamento e o que é vital pro relacionamento em questão sequer é comentado. Ah, o que são alguns meses, sei lá quantos, a uma distância de 2180 km? Isso não afeta em nada o relacionamento de um casal, ne? Melhor nem comentar, quando não se puder mais esconder a excitação com a partida ou a menção ao assunto numa roda de amigos a gente fala sobre, melhor seria deixar pra avisar no dia da despedida: Tô indo, tchau.
Meu plano
Composição: Lenine / Dudu Falcão
Meu plano era deixar você pensar o que quiser
Meu plano era deixar você pensar
Meu plano era deixar você falar o que quiser
Meu plano era deixar você falar
Coisas sem sentido, sem motivo, sem querer
Andei fazendo planos pra você
Engano seu achar que fosse brincadeira
Engano seu
Aconteceu de ser assim dessa maneira
O plano é meu
Mesmo sem motivo, sem sentido, sem saber
Andei fazendo planos pra você
Pra você eu faço tudo e um pouco mais
Pra você ficar comigo e ninguém mais
Largo os compromissos
Deixo tudo ao largo
Você tenta então me convencer
Que é melhor não fazer planos pra você
Meu plano era deixa você fugir quando quiser
Meu plano era esperar você voltar
Engano seu achar que o plano é passageiro
Engano meu
Acho que o destino antes de nos conhecer
Fez um plano pra juntar eu e você
Pra você eu faço tudo e um pouco mais
Pra você ficar comigo e ninguém mais
Largo os compromissos
Deixo tudo ao largo
Você tenta em vão me convencer
Que é melhor não fazer planos pra você
Meu plano era deixar você pensar o que quiser
Meu plano era deixar você pensar
Meu plano era deixar você falar o que quiser
Meu plano era deixar você falar
Coisas sem sentido, sem motivo, sem querer
Andei fazendo planos pra você
Engano seu achar que fosse brincadeira
Engano seu
Aconteceu de ser assim dessa maneira
O plano é meu
Mesmo sem motivo, sem sentido, sem saber
Andei fazendo planos pra você
Pra você eu faço tudo e um pouco mais
Pra você ficar comigo e ninguém mais
Largo os compromissos
Deixo tudo ao largo
Você tenta então me convencer
Que é melhor não fazer planos pra você
Meu plano era deixa você fugir quando quiser
Meu plano era esperar você voltar
Engano seu achar que o plano é passageiro
Engano meu
Acho que o destino antes de nos conhecer
Fez um plano pra juntar eu e você
Pra você eu faço tudo e um pouco mais
Pra você ficar comigo e ninguém mais
Largo os compromissos
Deixo tudo ao largo
Você tenta em vão me convencer
Que é melhor não fazer planos pra você
quarta-feira, 1 de abril de 2009
Inflação campineira
Vou voltar para Pasárgada
Lá não sou amiga do rei
Mas minha moeda
Compra pão de queijo e um café
Ninharia que aqui
Nunca verei
Lá não sou amiga do rei
Mas minha moeda
Compra pão de queijo e um café
Ninharia que aqui
Nunca verei
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